Em entrevista, Mario Vargas Llosa, hoje professor convidado da Universidade de Princeton, EUA, fala sobre a nova coletânea de seus textos, "Sabres & Utopias - Visões da América Latina", organizada pelo colombiano Carlos Granés e lançada no Brasil pela Editora Objetiva. Em pauta, a América Latina de Fujimori, Lula e Fidel, além do próximo livro do agora Nobel de Literatura, "O Sonho do Celta", a ser lançado nos próximos meses. Em "Sabres & Utopias", ensaios, artigos e documentos são dispostos fora de ordem cronológica, segundo critérios de importância fixados pelo organizador do livro, expert em sua obra. Há um ensaio no início, chamado "Um País de Mil Faces", que revela a sua relação com o Peru, algo que o explica como escritor.Sim, é um pequeno ensaio sobre a diversidade peruana. O país onde nasci pode ser tomado como uma espécie de síntese do mundo pela incrível variedade de tradições que o formam. Há o país pré-hispânico, que se perpetua nos milhões de peruanos de origem indígena, há o país europeu, de tantos milhões de origem hispânica e de outras nacionalidades, há o país também africano, dos negros que chegaram com os espanhóis há cinco séculos, há o país dos japoneses e chineses, integrados a essa diversidade desde o final do século 19, e, felizmente, há um processo de mestiçagem grande. Eis a grande fortuna do Peru: ser uma espécie de protótipo do mundo, com pontes para diversas culturas e crenças.Neste ensaio específico, é curioso quando o senhor fala dos "homens-formigas", herdeiros dos incas, que seriam a explicação para certa tendência à burocracia no seu país.O império inca foi uma realização assombrosa, ergueu cidades, fortalezas, templos, com extraordinária criatividade. E também gerou uma organização formidável que, segundo historiadores, dava de comer a todos os habitantes. Não se morria de fome no império inca. Mas, para isso, fez-se uma sociedade burocrática, vertical, autoritária, na qual o Estado dominador tomava sob sua responsabilidade o indivíduo, desde o nascimento até a morte. Então as pessoas careciam de iniciativa e liberdade. Essa é uma das razões pelas quais esse império acabou sendo destruído por uma minoria de conquistadores. Porque esses, ao decapitarem os chefes indígenas, fizeram desabar todo o edifício inca. A nossa modernidade guarda sequelas desse passado, como o tão característico espírito burocrático e a crença de que o Estado tem que resolver todos os problemas, não é verdade? Só que a tradição gregária e coletivista do indivíduo deprimido pelo Estado vai mais além e acaba por gerar um fenômeno duplo, pois tem a ver com as civilizações pré-hispânicas e também com a formação de colônias subordinadas a impérios autoritários, caso de Portugal e Espanha.Por que o senhor se refere ao Peru como uma "enfermidade incurável" em sua vida?Posso usar esta metáfora porque tenho um espírito atento e crítico em relação a meu país. É uma realidade sempre presente em minha vida, apesar de ter vivido desde cedo em outros lugares. Ainda hoje passo meses por ano fora do Peru, mas sem dúvida os problemas do país me afetam e sempre estou intervindo nos debates por lá. Há uma ligação permanente.Há 20 anos o senhor se candidatava à Presidência do Peru. Perdeu para Alberto Fujimori e saiu da vida política. Essa experiência lhe deixou traumas?Sempre participei da política como intelectual interessado no confronto das ideias, nunca me imaginei assumindo cargos, definitivamente não era minha vocação. Mas resolvi participar do jogo político num momento muito particular do país, em que havia uma situação econômica crítica, um processo hiperinflacionário que destruía os salários, um populismo que fazia com que o Peru fosse olhado com desconfiança pela comunidade internacional, quando os níveis de vida despencavam... e havia a violência social desencadeada pelo terrorismo, com Sendero Luminoso, Tupac Amaru e outras organizações radicais. Enfim, senti que nossa débil democracia poderia desaparecer, por isso resolvi me candidatar. Além disso, eu realmente acreditava haver um clima favorável para as reformas liberais e democráticas que me dispunha a fazer. Foi uma experiência instrutiva e ingrata, também, pela grande violência que a acompanhou... o saldo foi reconhecer que sou completamente incompetente como político profissional (risos).Borges disse que a "política é uma das faces do tédio". Passou a concordar com ele?Sim, Borges dizia isso. Mas não podemos prescindir da política. E nem tente fechar as portas para ela, pois irá vê-la entrando pelas janelas. Por isso, continuo disposto a participar, batalhar por melhoria social, por uma vida cultural mais plena, fortalecer a democracia e afastar qualquer hipótese de retorno às ditaduras do passado.Tem-se a impressão de que os intelectuais latino-americanos andam emudecidos, talvez até desviando de certos debates.Em nosso continente, a intelectualidade ainda está ligada a um monopólio cultural da esquerda, que por sua vez está a exibir duas faces. Pela primeira vez, há uma esquerda que chega ao poder em alguns países da região demonstrando ter aprendido boas lições ao renunciar à violência e abraçar a democracia, ao aceitar o livre mercado e respeitar a empresa privada, ao entender que o estatismo leva ao fracasso econômico, que por sua vez leva à pobreza. Isso ocorreu no Chile, com a Concertação, no Brasil com Lula, no Uruguai, curiosamente com um governo que vem de uma esquerda revolucionária. Sem dúvida, essa esquerda democrática deve ser bem-vinda, assim como deve ser bem-vinda uma direita democrática. Mas há também uma esquerda pouco ou nada democrática, como a que vemos em Cuba ou Venezuela. Veja como os venezuelanos acabam de impor um revés eleitoral a Hugo Chávez, pois já existe uma maioria que não se convence com o discurso do "socialismo século 21". Essa esquerda também está presente na Nicarágua, no Equador, sem falar do caso particular e trágico da Argentina, nas mãos de um casal demagogo e de uma turma com um prontuário dos piores. Como se pode eleger gente assim? Como se pode dar crédito a partidos e facções com entusiasmos de golpismo? Ora, os intelectuais têm medo de se manifestar livremente sobre isso, de serem desacreditados e atacados. Inclusive uma coisa que a esquerda sabe como fazer é satanizar o adversário. Diante disso, intelectuais constrangidos estão no máximo invocando cartas de correção política e usando os clichês de sempre. Porque assim são poupados e terão uma vida mais fácil.O artigo intitulado "Lula e os Castro", de maio de 2010, abre em "Sabres & Utopias" uma sequência de textos sobre Cuba, mostrando seu afastamento do regime castrista a partir do início dos anos 70. Mas no artigo em questão, o senhor manifesta indignação pelo fato do presidente brasileiro ter ido saudar Fidel e Raúl em Havana, no mesmo dia em que se enterrava o pedreiro Orlando Zapata Tamayo, dissidente do regime. São linhas bastante duras contra o líder de esquerda que o senhor imagina ter se tornado democrata.O presidente Lula evoluiu ao longo do tempo e isso foi muito benéfico para o Brasil. Ele hoje crê na democracia, no mercado, na iniciativa privada. Mas ele também tem sido muito contraditório, basta ver sua política externa. Um defensor da democracia não pode abraçar Fidel Castro nem os governantes do Irã, que representam uma ditadura teocrática. Esses abraços acabam legitimando regimes que são uma vergonha do ponto de vista político e moral. Essa contradição de Lula me parece lamentável. Então tive que externar meu protesto.Quando o senhor escreveu a famosa carta para Fidel, em 1971, protestando pela autocrítica forçada do poeta cubano Heberto Padilla, conseguiu adesão imediata de assinaturas famosas: Sartre, Simone de Beauvoir, Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino, Alain Resnais, Jorge Semprún, Susan Sontag, Maurice Nadeau, Alberto Moravia e outros. Hoje adesão em tal grau não acontece.Muitos outros intelectuais de peso assinaram aquela carta... Mas foi um momento de ruptura de parte da intelectualidade de esquerda com o regime cubano. Foi como se disséssemos: "Até aqui chegamos e não vamos seguir dando apoio." Muitos dos signatários conheceram Padilla pessoalmente. Sabíamos que era absurdo acusá-lo de revolucionário e agente da CIA, justamente ele que havia estado com a revolução desde os primeiros momentos, inclusive tendo parado de escrever sua poesia para trabalhar para o regime. Agia como funcionário fiel e as críticas que ousava fazer não eram contra o socialismo. Era contra o que acreditava ser uma deformação do socialismo. Por isso foi preso, caluniado, insultado. Aquilo foi um turning point. Muitos de nós nos despedimos da aventura revolucionária, que manteve a seu lado os mais dogmáticos e servis.O senhor agora está em Princeton ensinando Borges, o mestre argentino que teria sido responsável por resolver o complexo de inferioridade dos escritores latino-americanos, pelo que está escrito em Sabres & Utopias.Sem dúvida. De alguma maneira Borges estimulou os escritores latino-americanos a serem cidadãos do mundo, a se moverem sem complexo de inferioridade por todas as avenidas da cultura, por todas as tradições e todas as épocas. Provou que um escritor do nosso continente pode dizer coisas originais sobre Shakespeare, Molière, Stevenson, Chesterton, tendo uma visão universal. Isso nos ajudou a romper o nosso cárcere provinciano.Falemos do novo romance, "O Sonho do Celta", a ser lançado em breve. Como descobriu seu personagem, o diplomata britânico Roger Casement, que morreu em 1916?Eu o descobri lendo o escritor Joseph Conrad (1857-1924). Casement havia sido a primeira pessoa que Conrad conheceu no Congo, quando lá esteve em missão naval, como capitão de um barco. Ficaram amigos e Casement, que já estava servindo havia oito anos naquele lugar, abriu os olhos de Conrad para a tragédia humana que se passava por lá - as atrocidades que se cometiam, a falta de respeito pela vida naquelas comunidades miseráveis, o trabalho duro em áreas de exploração da borracha. Então foi graças a Casement que Conrad escreveu sua obra-prima, "O Coração das Trevas". Quanto a mim, ao ler Conrad cheguei a Casement, um personagem pronto para o romance. Depois de passar anos no Congo, documentando aquela exploração toda, Casement acabou viajando para o Brasil. Meu livro é um romance, uma ficção. Tomo como ponto de partida uma figura histórica, com uma biografia tão rica em experiências, e a trato com total liberdade. Como fiz, por exemplo, em "A Guerra do Fim do Mundo", em torno de Canudos. Posso dizer que os dois livros, "O Sonho do Celta" e A Guerra do Fim do Mundo, resultam muito diferentes, mas, ao tomar a história como matéria-prima para a ficção, eu poderia dizer que o procedimento é o mesmo. Ou seja, usar a história, mas também usar a fantasia e a imaginação para ficcionar.